Civilidade

Efeitos da tecnologia nas interações sociais e na etiqueta

02 dez 2021 • por Gabriela Vassimon • 2 Comentários

Você já parou para pensar sobre como os eletrônicos estão transformando as interações humanas e as boas maneiras?

Será que a tecnologia está colaborando para que as pessoas se comportem mal, de uma forma que não fariam cara a cara?

Quando ser multitarefa e digitar uma mensagem de texto enquanto fala com alguém se transforma de eficiente em rude?

Hoje muitos criticam a forma como nos comunicamos pelas atuais redes sociais. Mas essas críticas não são novas. Quando o telégrafo foi inventado, houve critica sobre o telégrafo. O mesmo aconteceu com o telefone. Foi dito que a televisão iria destruir as interações sociais. Com o passar dos anos, fomos aprendendo a usar essas tecnologias, que assim como as novas, vão se acomodando em nossas vidas. O que estamos vendo é apenas a última versão tecnológica disponível. Então se olharmos pelo lado positivo, todas essas são formas de aproximar as pessoas e permitir que se comuniquem livremente.

O lado negativo é que, por fornecer um certo anonimato, há pessoas que se utilizam dessa possibilidade para escreverem coisas que não teriam coragem de dizer se estivessem frente a frente com alguém. Há também aquelas que acabam compartilhando informações pessoais de forma exagerada, perdendo a medida entre o que expor e o que não expor. Quem nunca se deparou na internet, por exemplo, com alguém falando mal de outra pessoa que a traiu ou magoou? Coisas que antes tratávamos apenas com os envolvidos ou que contávamos somente para amigos mais próximos, acabam atingindo uma quantidade bem maior de espectadores devido ao grande alcance que essas redes possuem. Porém, muitas vezes o tiro acaba saindo pela culatra, e a pessoa que fez o desabafo e expôs a outra, acaba também se expondo demasiada e desnecessariamente. Auto controle é a palavra da vez.

Hoje enviamos mais mensagens de texto do que fazemos ligações. Podemos descobrir com antecedência na internet várias informações sobre alguém antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Ficamos sabendo sobre eventos para os quais não fomos convidados e o que nossos amigos e conhecidos estão fazendo em tempo real.

O celular e a etiqueta

Em relação ao uso do celular, ainda é algo que estamos aprendendo a negociar e lidar. Por exemplo: onde é aceitável atender uma chamada telefônica? Em um restaurante sofisticado, não. Em uma lanchonete, provavelmente você atenderia. Então há questões que ainda estamos tentando entender. As regras não estão muito claras, e as pessoas não estão muito seguras sobre como agir em certas situações.

Hoje vemos pessoas andando na rua falando ao celular, ou apenas com o fone no ouvido enquanto conversam ao telefone, o que torna ainda mais difícil para alguém que está perto identificar se a pessoa está livre ou ocupada. Além desse tipo de atitude colocar o distraído em risco – de ser roubado, de pisar em uma poça, de cair em um buraco, etc. – também pode fazer com que alguém não perceba o fone e se aproxime para dizer algo, ou pedir uma informação, o que fará com que a pessoa precise interromper a conversa ao telefone, o que de certa forma é um desrespeito à pessoa que está do outro lado da linha. Sem contar o tanto de pessoas que deixam de se aproximar porque notam que você está ocupado. Com isso perdemos oportunidades que não fazemos ideia. Você pode pensar: ah, mas que diferença faz eu deixar de dar uma informação a um desconhecido? Mas não é só esse tipo de interação que você perde. Imagine se alguém se impressiona com sua forma de se vestir, andar e gesticular e resolve puxar assunto, o que mais tarde resultaria em uma proposta de emprego ou em uma nova amizade? Não temos dimensão das oportunidades que perdemos. Mas o ponto é: por que estamos com tanta pressa? Por que tentar fazer tantas coisas ao mesmo tempo? Até que ponto ser multitarefas é eficiente? Qual o limite entre ser multitarefas e ser rude?

Talvez estejamos fazendo muitas coisas ao mesmo tempo simplesmente porque podemos, visto que a tecnologia atual possibilita isso. E também porque estar conectado gera dependência, então deixamos de pensar e passamos a cultivar o vício de dar uma olhadinha no celular – mesmo sabendo que raramente é apenas uma olhadinha. Como veremos mais abaixo, ficar desconectado das notícias gera uma sensação descrita pela sigla em inglês F.O.M.O., que em português seria algo como medo de ficar de fora.

‘Multitarefa’ e a atenção dividida

Já sobre o limite entre ser multitarefas e ser rude, o uso de eletrônicos se torna rude quando deixamos de dar atenção, falar ou olhar para alguém por estarmos olhando para alguma tela. Um exemplo: você é chamado pela recepcionista do consultório médico, onde você aguarda para ser atendido, e enquanto ela está falando com você, você está mexendo no celular e acaba não respondendo direito as perguntas dela ou fazendo ela precisar repetir o que falou. Então se você procurar priorizar o contato humano e deixar os aparelhos de lado quando alguém solicitar sua atenção, você dificilmente será rude nesse sentido. E caso aconteça de você já estar em uma ligação ou trabalhando em seu computador quando alguém se aproximar e te interromper, se puder faça uma pausa e atenda a pessoa. Se não puder, explique que você tem um prazo a cumprir e que no momento não vai conseguir dar a atenção que ela merece, mas que pode procurá-la depois.

Pode ser fácil, principalmente para gerações mais velhas, julgar os jovens que enviam mensagens e estão o tempo todo se comunicando com quem está distante. Pode ser fácil pensar que eles estão desrespeitando as pessoas que estão próximas. Por outro lado, para esses jovens, eles estão respeitando as pessoas que estão distantes, pois estão incluindo-as no momento e na atividade presente. Então é importante refletirmos sobre como às vezes colocamos os nossos valores acima dos valores dos outros e julgamos se o que estão fazendo é correto ou não, ignorando e desconhecendo outros pontos de vista.

Hoje, enquanto estamos em um evento, são poucas as pessoas que não estão tirando fotos ou fazendo vídeos e postando em suas redes sociais. Para alguns, isso significa que não estão aproveitando o momento. Porém, para aqueles que estão postando, isso é parte da diversão. Então existe uma diferença no ponto de vista de algumas pessoas, um tipo de gap – lacuna – geracional, que faz com que tenham um significado diferente de diversão e uma dificuldade de enxergar a situação sob a perspectiva de outras gerações.

Por outro lado, não podemos definir esse cenário como sendo apenas uma questão de gap geracional. Sim, ele existe. Porém, ainda assim, é importante que cada um de nós reflita sobre isso e avalie se está desfrutando dos momentos como gostaria. E claro, tem como ter equilíbrio. Não existem somente duas opções: não fazer fotos ou fazer o tempo todo. Se você quer diminuir a dependência, você pode, por exemplo, começar a criar o hábito de fazer fotos e vídeos sempre no início ou no final dos eventos – isso pode até virar um combinado entre você e sua família ou amigos. Assim que fizer as fotos, guarde seu aparelho e se esforce ao máximo para não pegar mais. Ou deixe em um local distante de você.

Outra situação que mudou é que antigamente podíamos passar 24 horas ou até mais tempo sem responder uma mensagem e ficava tudo bem. Hoje parece que esse tempo de tolerância diminuiu. Há pessoas que, se ficam algumas horas sem retorno, já exigem resposta de forma grosseira, ou até mesmo te bloqueiam. Uma vez eu estava contratando um serviço de uma profissional e após trocarmos várias mensagens, fiquei 1 dia sem responder à ela – o que não havia acontecido antes em nossas conversas – pois era aniversário da minha filha e eu estava no mesmo dia gravando vários vídeos para lançar um curso novo (confira nosso curso de etiqueta para crianças), , que eu tinha poucos dias para divulgar. Então ela me escreveu brava, como se estivesse sido rejeitada, acabou com a prestação de serviço e me bloqueou no Whatsapp. Como psicóloga, consigo imaginar e interpretar, mesmo sem conhecê-la, que ela provavelmente viveu situações de abandono ou rejeição que a deixaram insegura, e hoje, ao menor sinal de abandono, abandona o outro antes para que não seja ela a pessoa rejeitada. As pessoas estão perdendo oportunidades de trabalho – e não só de trabalho – por falta de inteligência socioemocional, que engloba, entre outros itens, o auto conhecimento, o auto controle e a empatia.

Efeitos da Tecnologia nos Relacionamentos, na Etiqueta e Boas Maneiras

Há quem afirma que o número de mentiras nos relacionamentos aumentou por conta do crescimento do uso da tecnologia, visto que há pessoas que acabam exagerando nas cobranças feitas virtualmente aos cônjuges, familiares e amigos. Se o marido está viajando a trabalho, por exemplo, e passa um tempo sem dar notícias, a esposa fica muito preocupada ou até mesmo furiosa. Parece que nos esquecemos que antes fazíamos no máximo uma ligação no fim do dia. Será que o avanço tecnológico está ajudando a criar  relacionamentos mais sufocantes?

A era da gratificação instantânea, onde quase tudo é resolvido com um toque no celular, está nos deixando mais impacientes e intolerantes. Você deve estar se perguntando: “E qual é o antídoto contra isso?”. A resposta está nas palavras que usei aqui acima, desenvolver nossa inteligência socioemocional. Aprofundar a autoconsciência, exercitar o autocontrole e a empatia. Qualquer ferramenta que traga mais autoconhecimento e autocontrole também é válida: terapia, meditação, atividade física, etc.

Outro ponto interessante é a forma como as pessoas se agrupam nas redes sociais. Há pessoas que adicionam amigos de amigos em suas redes, ou pessoas que não veem há anos, pessoas com quem nunca conversaram e até pessoas que não conhecem, só por terem amigos em comum. E há também um outro perfil de usuário, aquele que só adiciona quem conhece ou amigos mais próximos. Esse é um critério que cabe a cada um estabelecer. E que pode acabar gerando algumas situações constrangedoras, para as quais nem sempre estamos preparados. Exemplo: todos estamos sujeitos a tentar adicionar alguém e a pessoa recusar nosso convite e sermos rejeitados. Assim como podemos estar do outro lado e passar pelo desconforto de recusar o convite de alguém. Ambas são situações corriqueiras atualmente, com as quais estamos aprendendo a lidar. É importante dizer que caso você escolha recusar uma solicitação de amizade online, não há necessidade de dar explicações à pessoa. Para algumas pessoas pode parecer delicado justificar, mas acaba se tornando ainda mais constrangedor. É desnecessário.

Uma questão que percebo que sofreu bastante mudança também é a forma como parabenizamos alguém pelo seu aniversário. Antigamente recebíamos mais telefonemas, hoje contamos nos dedos a quantidade de pessoas que telefona. Não sei você, mas eu gostaria de receber mais telefonemas do que mensagens de texto. Principalmente das pessoas mais próximas. Quando alguém próximo manda parabéns por mensagem em vez de telefonar, é como se dissesse: “não tenho tempo para você”. Se você prefere receber telefonemas, se pergunte se você está fazendo isso com os outros. Não adianta querermos uma coisa e praticarmos outra. Quem sabe você telefonando mais, essas pessoas notarão a diferença e também passarão a te telefonar.

Há outras situações em que seria mais elegante telefornarmos ou escrevermos um cartão em vez de agradecermos eletronicamente, por exemplo: quando alguém te envia um presente de aniversário ou de casamento. Estamos substituindo, muitas vezes sem pensar, pequenas gentilezas como essas por mensagens eletrônicas. Esses pequenos atos de cortesia podem fazer diferença não só na imagem e impressão que transmitimos aos outros, mas também na qualidade e profundidade dos nossos relacionamentos, podendo impactar até mesmo em mais oportunidades, como promoções no trabalho ou convites sociais.

Há momentos em que precisamos de uma resposta rápida de alguém, aí automaticamente enviamos mensagem em vez de ligar, e ficamos aflitos pela resposta ou apressando a pessoa para responder. Esquecemos que um telefonema poderia resolver muito mais rapidamente a questão. Várias vezes recebi mensagens de alguém com pressa e acabei visualizando e respondendo tarde demais para o que a pessoa precisava. Por exemplo: uma vizinha que queria saber se eu tinha açúcar para emprestar. Nesses casos, depois que vejo a mensagem costumo avisar: “quando for assim, me liga.” Parece que estamos até esquecendo que os telefones tem essa função, de tão dependentes que ficamos das mensagens.

Isso sem falar em mal entendidos que acontecem quando um não compreende o verdadeiro tom da mensagem que o outro quis transmitir. As mensagens de texto não transmitem emoção, o que com frequência causa problemas de comunicação. As mensagens de voz, por sua vez, já passam mais emoção. Porém, temos que ter cuidado também, pois nem todos gostam ou podem escutar dependendo de onde estiverem. O mais indicado quando falamos em etiqueta e boas maneiras é perguntar antes por texto se você pode enviar um áudio. Confesso que prefiro áudios, e às vezes peco por não perguntar antes se posso enviar um. Mas a gente vai percebendo – se tiver um pouquinho de desconfiômetro – quem gosta e responde e quem não gosta ou não consegue ouvir áudio. E então, dependendo de com quem iremos falar, podemos gravar ou só escrever, como forma de respeitar as preferências da pessoa.

Hoje é difícil manter uma conversa sem ter algum tipo de interrupção da tecnologia. Você está falando cara a cara com uma amiga e então ela recebe uma mensagem e checa o telefone, ou lembra que precisa anotar algo na agenda virtual. Com frequência as pessoas estão tão distraídas com seus telefones que deixam de dizer “bom dia’, “por favor”, “obrigado” ou “com licença”.

Crianças e adolescentes

A Academia americana de psiquiatria da infância e adolescência reportou em 2011 que crianças assistem uma média de 4 horas de televisão por dia. Isso significa 28 horas por semana e quase 1500 horas por ano. Ou seja, as crianças nos EUA passam quase duas vezes mais tempo assistindo TV do que aprendendo com uma professora por ano.

Em relação aos jogos e redes sociais, que veremos mais detalhadamente abaixo, um estudo mostrou que crianças de 8 a 18 anos passam uma média de 7 horas e 38 minutos usando essas mídias em um dia comum. Isso é mais do que 53 horas por semana, o que limita severamente a quantidade de tempo disponível para desenvolver habilidades sociais e de tomada de decisão.

Se eles não forem adequadamente orientados e se utilizarem os eletrônicos em excesso, a tecnologia acaba afetando negativamente as boas maneiras. Hoje nos comunicamos com poucas palavras por mensagens de texto e redes sociais, e as crianças parecem passar mais tempo com seus aparelhos do que umas com as outras. Como resultado, especialistas acreditam que as boas maneiras sofreram neste processo.

Além do risco bem conhecido de que crianças podem acessar conteúdo inapropriados à sua idade, outro fato corriqueiro é que, ao ficarem viciadas ou passarem muito tempo diante das telas, aumenta também a tendência de não ouvirem os pais e não completarem tarefas da casa como arrumar sua cama, ajudar a lavar a louça, etc.

As facilidades oferecidas pela tecnologia podem contribuir para aumentar a impaciência das crianças e adolescentes – e não só deles – por estarem se acostumando com a gratificação instantânea. Hoje resolvem quase tudo que precisam fazer ou saber com uma rápida pesquisa no celular ou com a ajuda de algum aplicativo. Isso pode levar ao desrespeito, fazendo aos pais e outras pessoas muitas exigências e querendo ser atendidos em suas necessidades rapidamente.

Para as crianças, boas maneiras são fundamentais para sua habilidade de construir relacionamentos positivos ao longo da vida.

Para algumas pessoas, principalmente a geração de antes da era da internet, a tecnologia arruinou as boas maneiras. Porém, a tecnologia tem tanto aspectos negativos como positivos no comportamento social.

Os aparelhos eletrônicos e seus recursos disponíveis podem servir para te ajudar a ensinar boas maneiras aos filhos, desde que usados com sabedoria e cuidado.

O lado positivo dessas ferramentas seria usá-las para mostrar às crianças e adolescentes livros, vídeos e outros conteúdos sobre boas maneiras, como os que disponibilizamos em nosso canal do Youtube, site e Instagram.

Em relação aos pontos negativos, existem muitos quando falamos da etiqueta social e da etiqueta à mesa.

À mesa, os eletrônicos atrapalham muito, pois ao roubar nossa atenção, diminuem a interação entre as pessoas, ou seja, não conversamos direito, não olhamos nos olhos, não fortalecemos vínculos. Há ainda a questão alimentar e nutricional que também acaba sendo prejudicada: crianças comendo menos ou mais que o suficiente, não observando o que estão comendo, não aprendendo sobre os alimentos, não saboreando e prestando atenção aos sentidos.

Em relação à etiqueta social, os eletrônicos também podem ser bastante prejudiciais, se não forem usados com cautela. Há sim um lado positivo, se as crianças e adolescentes souberem usá-los para fazerem amizades ou passarem mais tempo com amigos reais, como quando combinam de se reunir na casa de alguém para jogarem juntos, por exemplo, ou para falar com um amigo ou familiar que mora em outra cidade. Porém, quando usados de forma descontrolada, os eletrônicos tendem a diminuir o contato entre as pessoas, assim como acontece à mesa. Os jovens perdem a chance de conhecer pessoas novas, de aumentar o vínculo com amigos antigos, e ficam alheios à outras oportunidades que poderiam ter se estivessem prestando mais atenção ao ambiente em que estão. Alguns acabam se isolando completamente do círculo familiar, e de amigos da escola ou do bairro, passando a ter unicamente contato com quem interage virtualmente, passando até a evitar contatos reais. Tudo isso traz prejuízos socioemocionais enormes. Ele não vai aprender a ler pistas e sinais não verbais que um contato frente a frente proporciona, não desenvolverá a habilidade de se comunicar verbalmente com clareza se sua comunicação for principalmente por mensagens escritas, não irá treinar falar em público. Sua empatia ficará diminuída pelo fato de não estar observando e tentando ler os sentimentos daqueles à sua volta, entre diversos outros prejuízos socioemocionais, que podem vir a influenciar inclusive a saúde física e psicológica dessa criança ou adolescente.

Não estou dizendo que devemos abandonar essas facilidades. Elas são bastante convenientes. Mas é importante sabermos o quanto o avanço da tecnologia dificulta que as crianças aprendam lições valiosas diariamente. Nosso objetivo deve ser usar os benefícios da tecnologia e também estarmos atentos para proporcionar às crianças e adolescentes outras oportunidades para aprenderem paciência e resolução de problemas.

As crianças de todas as idades devem interromper a comunicação em dispositivos dentro de uma hora ou mais antes de dormir.

Confira nosso curso de etiqueta infantil.

RECOMENDAÇÃO DA OMS

Confira a recomendação da OMS (Organização mundial da saúde) sobre o uso de telas adequado a cada idade:

– Abaixo de 18 meses:

Nenhuma exposição à telas, exceto por videochamadas (para pais e avós, por exemplo)

– 18 meses a 2 anos

Recomendação: pouca ou nenhuma exposição a telas

Esse é um período crítico para o desenvolvimento da criança, então estimule ao máximo a interação física com outras pessoas e a sua criatividade. Se a criança for exposta a telas, assista em conjunto e escolha conteúdos educativos de qualidade, que ajudarão a criança a compreender o que está assistindo. Limite o conteúdo a uma hora diária.

– 3 a 5 anos

Até 1 hora ao dia

Tente planejar o tempo de assistir TV com antecedência e resista à tentação de usá-la para acalmar ou distrair a criança Crianças nessa idade podem interagir com os personagens, então ajude-as a entender o que estão vendo e aplicar isso ao mundo real Muitos tipos de mídia e desenhos podem ser encontrados em outras versões, como as impressas. Tente encontrar livros e brinquedos para que as crianças brinquem e interajam com seus personagens favoritos, só que fora da tela. É uma outra maneira de envolver as crianças em brincadeiras criativas!

– 6 a 10 anos

Entre 1 hora e 1:30min ao dia

Tenha limites com o tempo gasto em mídias e telas. Avalie o conteúdo que é consumido. Nessa idade a criança já está na escola, então certifique-se de que ela não tenha o hábito de ficar exposta a TV, tablet e celular até que tenha terminado as tarefas de casa. Entre 6 e 20 anos, as crianças já adquirem algumas habilidades tecnológicas, então tente balancear o uso criativo e aquele utilizado apenas para diversão. Com a idade, os pais podem dar às crianças um pouco mais de controle sobre suas escolhas e manejo do tempo com o celular, tablete e TV. Certifique-se de que as telas não ocupem o tempo que deve ser gasto com horas de sono adequadas, atividade física e outras atividades essenciais à saúde da criança.

– 11 a 13 anos

Até 2 horas ao dia

Nessa idade, a criança já entende o conceito de “equilíbrio”. Os pais devem ajudá-la a entender como distribuir o tempo de exposição às telas ao longo do dia. Se você notar que a criança está exagerando no uso dos videogames, por exemplo, há uma semana ou duas, tente ajudá-lo a entender os benefícios de realizar essas atividades com moderação. Ajude a criança a reconhecer que está gastando muito tempo em uma única coisa. Ter essa percepção poderá ajudar a criança por toda sua vida.

Saber qual a quantidade de horas é o máximo recomendado para minhas filhas me ajudou a estabelecer limites para elas e a ficar mais atenta se estão cumprindo.

CONTATO VISUAL

Em termos de comunicação, é importante aprenderem a não interromper enquanto outros estão falando, a ouvir com total atenção e se expressar com frases completas – e não com duas palavras ou abreviações.

Estamos vivendo uma época em que nossos filhos e seus colegas muitas vezes se sentem mais confortáveis em olhar para uma tela do que para uma pessoa. É importante oferecermos em casa um modelo para que elas aprendam e pratiquem conversar cara a cara. Quando não reforçamos e praticamos essas habilidades em casa, estamos deixando essas lições para o acaso.

É muito desagradável ser saudado com um murmuro ou um aceno de cabeça.

Quando as crianças estão utilizando telas e são abordadas por um adulto ou outra criança, é importante que saibam olhar para cima e fazer contato visual ao responderem. O contato visual desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de um bebê e é uma habilidade social importante das crianças utilizarem. O contato visual demonstra conexão e respeito, e é a base para uma interação significativa.

A melhor forma de instalar um comportamento em nossos filhos é primeiro exibirmos nós mesmos. Ou seja, precisamos garantir que estamos olhando para nossos filhos quando eles estão falando conosco, e não para nossas telas.

Eu sei que na prática isso é difícil, principalmente para aqueles de nós que trabalham pelo celular. Uma sugestão é que se seu filho estiver precisando falar com você e você tiver que responder algo do trabalho, avise-o que precisa mandar uma mensagem de trabalho e que quando você voltar poderá lhe dar total atenção, e então saia de perto. Não esqueça de voltar e lhe dar a atenção prometida, eles precisam ser ouvidos e se sentirem especiais. Isso irá contribuir para que seu filho se torne uma pessoa segura e autoconfiante.

JOGOS E VIDEOGAMES

Pesquisas revelam que as crianças de hoje passam quase duas vezes mais jogando do que lendo.*

Outra pesquisa mostrou que noventa por cento de crianças do terceiro ano nos EUA já estão online.*

Mas como saber quanto é demais? Pense no que a criança estaria fazendo se não estivesse jogando. Brincar e praticar esportes com os amigos oferece muitas oportunidades de praticarem habilidades sociais. Deixar de praticá-las de vez em quando não é um problema, o que torna preocupante é quando isso se torna um padrão, ou quando os jogos são uma maneira de escapar da interação com outras pessoas. Videogames e jogos são especialmente atrativos para crianças e adolescentes que tem dificuldades com habilidades sociais e em se relacionar com crianças da sua idade. Como os jogos não exigem quase nenhum tipo de habilidade social, isso gera alívio e se não for cuidado pode se tornar o início de um círculo vicioso que o leve cada vez mais ao isolamento. Um dos sinais ao quais os pais podem estar atentos e que podem sinalizar que algo não vai bem é quando pedem que ele pare de jogar e o filho responda com explosões de raiva. Jogar como forma de se distrair um pouco e relaxar é uma coisa, mas jogar para fugir das exigências da vida é preocupante.

Os pais saberão que é hora de impor limites quando seu filho:

– não parar de jogar quando solicitado

– não reagir quando falam com ele, de tão imerso que está no jogo

– ao parar de jogar se mostra muito agitado

Como mencionamos mais acima, se as crianças estão jogando com outras, seja de forma online ou lado a lado, quando se reúnem para jogar, são situações que podem promover mais interação e comunicação, sendo portanto, menos preocupantes. Porém, é importante entender que jogar de forma coletiva deve ser apenas uma forma inicial ou momentânea de praticar fazer amizades, não substituindo interações reais. Ajude seu filho a se mover cada vez mais em direção a encontros cara a cara. Quando seu filho só se relaciona com outras pessoas virtualmente ou começa a mostrar muitos sinais de dependência ou de ansiedade, pode ser melhor afastá-lo dos dispositivos por um tempo. Ou então você pode limitar bastante o uso. Quinze minutos por dia é o suficiente para checar e responder mensagens.

Uma outra sugestão para balancear a quantidade de encontros online e presenciais, é combinar com seu filho que quando ele participar de algum evento ou encontro presencial, passa a ganhar mais tempo para usar as redes sociais.

Cada criança é única. Nem todas, ao jogar um determinado jogo mais agressivo, irão imitar exatamente o que veem. Mas os pais precisam estar atentos pois podem associar ao jogo comportamento mais impulsivos e inapropriados.

Trouxe algumas sugestões que podem te ajudar a organizar a questão das regras em casa:

  1. Só permitir que joguem quando a lição de casa ou outras tarefas obrigatórias – como ler ou ajudar nos afazeres domésticos, por exemplo -estiverem finalizadas.
  2. Limitar o jogo a 1 hora por dia (ou a quantidade que você julgar adequada). Isso é importante pois os ajuda a criar um senso de rotina e organização, além de entender a importância de limitar o lazer e o prazer.
  3. Na minha casa, onde temos uma filha de 9 anos e uma de 5 anos, percebemos que elas estavam ficando muito viciadas quando começamos a deixá-las jogarem durante a semana. Então criamos a regra de que só é permitido jogar aos finais de semana. E está funcionando bem. Elas quase nunca pedem para jogar durante a semana, pois nas vezes que tentaram a resposta foi “não”.  Acontece uma vez ou outra de pedirem, e em raras exceções deixamos. Mas isso não estraga o combinado, pois no início do estabelecimento da regra fomos firmes. E as exceções de hoje são de fato exceções, pois se você começa a abrir muita exceção bagunça tudo de novo. Uma alternativa ao que fizemos é estabelecer dias específicos da semana em que é permitido jogar, cuidando para não atrapalhar o sono e a rotina escolar.
  4. Deixar claro quais jogos são permitidos e quais não são, ainda que seu filho diga que todo mundo está jogando. Explique que haverá consequências caso o limite seja descumprido. Se a criança acha que precisa jogar escondido de você, deve ter algum motivo para isso. Jogos podem ser jogados em espaços abertos, não com portas fechadas.
  5. Sugira que seu filho convide amigos para jogarem em casa, assim ele precisará exercitar habilidades de planejamento, organização e comunicação.

Seus filhos certamente irão reclamar ao saberem das novas regras, mas com o tempo irão se acostumar à elas e passarão a apreciar ainda mais o momento do jogo por sentirem que mereceram aquele tempo, além de se sentirem mais orgulhosos e tranquilos por saberem que já cumpriram com suas obrigações.

Sugestões para ajudar seus filhos a não se exporem a riscos:

  1. Não usarem seus nomes verdadeiros ao jogarem em sites que permitem que jogadores desconhecidos joguem juntos.
  2. Revisar com eles com frequência as regras da casa sobre compartilhamento de informações pessoais no ambiente virtual. A única informação que eles deveriam expor é o primeiro nome (ou o apelido virtual) e o local onde moram de forma ampla (país, Estado). Nunca devem dizer sobrenome, endereço, número de telefone, nome da escola ou outros lugares que costumam frequentar.
  3. Conheça as redes sociais que seu filho utiliza, tenha conta em algumas delas. Assim você irá se familiarizar com elas e entender como funcionam.
  4. Com crianças, crie a conta junto com eles e tenha os dados de acesso. Cheque regularmente se a senha não foi trocada.
  5. Inicialmente escolha níveis de segurança bem restritos para controlar com quem seu filho pode interagir e quanta informação pode ser compartilhada
  6. Pergunte como conheceram seus amigos virtuais, o que sabem sobre eles. Assim como você sabe aonde seu filho vai quando ele sai para encontrar um amigo fora de casa, saiba com quem ele tem se comunicado online.
  7. De vez em quando verifique o perfil do seu filho nas redes sociais para checar o que ele tem escrito e quais imagens tem publicado. É bom eles saberem que você pode olhar a qualquer momento. Se você notar algo estranho, converse com seu filho e investigue melhor para poder orientá-lo sobre a continuidade dessa amizade.

Obs.: se você tem uma tendência a ser superprotetor ou muito exigente, cuidado para não sufocar seu filho e ficar monitorando cada palavrinha que ele escreve. Seu filho também precisa de privacidade. Quando você se torna muito invasivo e faz isso com frequência, seu filho sentirá que você não confia nele, que ele não é capaz de fazer boas escolhas e de tomar decisões sozinho. Isso pode trazer vários prejuízos à ele, como insegurança, falta de autoconfiança, baixa auto estima.

  • Você pode visitar o perfil de seu filho da sua própria conta para ver o que ele tem consumido e publicado, mas de preferência combine logo no início que ele deve te aceitar como amigo dentro de suas redes. Dessa forma você terá acesso a informações que não teria caso ele não aceitasse sua solicitação de amizade.
  • Combine, principalmente com as crianças que estão iniciando seus perfis em redes sociais, que antes de publicarem uma imagem precisam te mostrar. Assim você consegue evitar que elas publiquem conteúdos inapropriados antes que seja tarde. Ao fazer isso por um tempo, seu filho vai adquirir sozinho uma melhor noção do que é adequado postar.

COMPARTILHAMENTO

Ter vários filhos não significa que temos que ter vários celulares, tablets e computadores: aprender a compartilhar é uma habilidade valiosa do crescimento. Mesmo como adultos temos dificuldade em esperar nossa vez, mas todos nós aprendemos a fazê-lo durante nossa própria infância. Você se lembra da época em que tinha que compartilhar aquele único telefone fixo em casa? Para ajudar nossos filhos a compartilharem um dispositivo eletrônico sem conflito, podemos tentar definir uma programação junto com eles. Sente-se e crie uma agenda que as crianças possam consultar, mesmo quando você não estiver lá, para aplicar as regras que elas mesmas ajudaram a criar.

MEDO DE FICAR DE FORA (F.O.M.O.)

A pesquisa sobre isso revela dados preocupantes: gastar muito tempo nas redes sociais contribui para a ansiedade e depressão na infância e adolescência. A principal responsabilidade dos pais é monitorar como a mídia social afeta o humor de nossos filhos e sua sensação de bem-estar. Embora a mídia social possa ser uma ferramenta maravilhosa para ampliar e aprofundar amizades, ela também pode causar danos consideráveis ​​à autoestima de nossos filhos. Um bom começo é estabelecer limites – assim como conhecer nossos filhos bem o suficiente para reconhecer mudanças neles. Nossos filhos podem inicialmente se irritar com nosso envolvimento, mas eles apreciam saber que nos preocupamos com eles. O medo de perder/ficar de fora (FOMO – do inglês “fear of missing out”) e o cyberbullying representam alguns dos maiores riscos aos quais nossos filhos estão expostos hoje.

Eles podem ser muito criativos quando se trata de conquistar sua privacidade neste novo universo. Por isso é importante mantermos um olhar atento sobre as contas de mídia social de nossos filhos. Existem contas falsas e contas normais no Instagram então é importante que você e seus filhos conversem sobre isso, porque eles aprendem desde cedo como esconder de seus pais sua presença “real” nas redes sociais. Converse com eles sobre o que é ou não apropriado postar nas rede e não espere até a adolescência para começar essas conversas.

Desafios, tentações e bons exemplos

O maior desafio dos pais e educadores é ensinar as crianças a aproveitarem os benefícios de seus aparelhos eletrônicos sem que o uso das telas piore a qualidade de vida delas – e a nossa.

Ademais, nós adultos também consumimos bastante tecnologia e sabemos que não adianta falarmos para nossos filhos e alunos fazerem diferente, se estão nos vendo dar um exemplo contrário.

Portanto, temos que dar o exemplo e trabalharmos nossa própria etiqueta digital, buscando nos concentrar mais no envolvimento humano do que nos smartphones, computadores, tablets e jogos que estão cada vez mais competindo por nossa atenção. Dirigir distraído, ou mesmo andar distraído, deve ser um ponto importante de discussão e, como sempre, devemos liderar pelo nosso próprio exemplo. Não use uma faixa de pedestres enquanto olha para o seu telefone e use as configurações do seu telefone para silenciar todas as chamadas recebidas e mensagens de texto enquanto você estiver dirigindo.

Muitos pais se preocupam com o impacto do tempo de tela no desenvolvimento emocional e social de seus filhos e, uma vez que os filhos usarão seus dispositivos quando estiverem por conta própria, é importante estabelecer regras da casa desde cedo para ajudá-los a equilibrar o consumo de tecnologia.

Muitos de nós não resiste e acaba oferecendo ou cedendo aos pedidos dos filhos e emprestando um celular ou tablet para distraí-los enquanto os levamos ao supermercado ou enquanto estão no carro ou em salas de espera. Ao fazer isso, ajudamos a criar a expectativa de que a tecnologia é seu único entretenimento durante períodos de ociosidade, e quando essa distração é removida, a tendência é que as crianças e adolescentes fiquem chateados.

Quando as crianças têm acessos de raiva, a melhor estratégia é permanecermos calmos e consistentes, orientando-os assim que recuperarem o controle de suas emoções. Nossos filhos podem primeiro precisar sentar em silêncio sozinhos antes de estarem prontos para falar sobre algo, mas as emoções fortes não duram para sempre, e aprender a controlá-las é uma parte importante do desenvolvimento geral de nossos filhos. Assim que o acesso de raiva passar, primeiro certifique-se de que você está calmo e, em seguida, tenha uma conversa cuidadosa com seu filho, reconhecendo seus sentimentos e explicando por que ele não pode ter uso ilimitado de telas. Explique por que a reação dele a esses limites precisa melhorar para que ele continue recebendo a chance de usar seus dispositivos daqui para frente. Os acessos de raiva muitas vezes têm como objetivo moldar o comportamento dos pais – então não desista. Ensinamos aos nossos filhos o autocontrole quando o exibimos.

As redes sociais podem ser viciantes em qualquer idade, então é importante verificarmos o exemplo que nós mesmos estamos dando para nossos filhos antes de nos concentrarmos em quanto eles estão consumindo-as. Nas férias em família, estamos nos entregando e aproveitando o momento ou estamos prestando mais atenção às nossas experiências para registrá-las e divulgá-las na rede social? Dê o exemplo e ensine seus filhos a viverem conectados com o presente antes de se preocuparem com como isso ficará em seu feed do Instagram.

Mensagens de texto

Se seu filho é pré-adolescente ou adolescente, provavelmente já está enviando mensagens de texto em um tablet, smartphone ou aplicativo de mídia social. E mesmo se essa tecnologia não existisse, eles estariam no telefone de sua casa fazendo a mesma coisa que fazem em seus dispositivos: expandindo seu círculo para pessoas além de sua família imediata. Muitas das coisas que enfrentamos nesta frente como pais não têm nada a ver com tecnologia, e tudo a ver com compartilhar nossos filhos com um grupo de pessoas que ainda não conhecemos. Esteja atento aos seus instintos sobre isso, afinal você mesmo já vivenciou esse estágio.

Aos dez anos, seus filhos podem estar participando de conversas de texto em grupo, às vezes incluindo uma dúzia de crianças ou mais. O pensamento de grupo às vezes se estabelece e raramente inspira as crianças a darem o melhor de si. Aconselhe seus filhos a não enviarem mensagens de texto com nada que tenham medo de dizer pessoalmente. Também certifique-se de que eles estão cientes de que textos, mensagens diretas e e-mails podem ser transformados em capturas de tela e repassados ​​a outras pessoas. Freqüentemente, isso é feito fora do contexto e pode ser usado para ferir os sentimentos de outra criança. Esta é uma boa oportunidade para ensinar as crianças sobre uma regra da casa que proíbe o bullying: na sua família, ninguém pode ser mau com as outras pessoas.

Se você tem filhos mais velhos, provavelmente já descobriu que as mensagens de texto são uma ótima maneira de manter uma conversa aberta com eles enquanto passam mais tempo longe de casa. Os avós adoram videochamadas com os netos e os bate-papos em grupo familiar mantêm todos conectados, não importa a distância que vivam.

Pressões e alternativas

A maioria das plataformas autoriza as pessoas para criarem contas a partir dos 13 anos, mas cabe aos pais decidirem que idade consideram adequada. Sugiro adiar o máximo possível. Seu filho de 8 anos ou pré-adolescente pode estar te pressionando para abrir uma conta ou comprar um smartphone, e tentando te convencer com argumentos como “todos os meus amigos tem”. Não é fácil não ceder a essas pressões. O que pode ajudar é bastante diálogo, mostrar dados sobre os malefícios das telas, limitar o seu próprio uso de telas também, e como citamos no item sobre crianças e adolescentes, incentivar que ele descubra e pratique outras atividades e hobbies. E quando você julgar que é a hora dele ter um celular ou usar redes sociais, procure sempre limitar e colocar regras sobre o uso. Lembre-se que até mesmo nós adultos temos dificuldade em ter disciplina e evitar o vício. Se não conseguimos nos controlar, como podemos esperar que nossos filhos consigam? Em vez de brigar com ele e reclamar que ele não se controla, coloque limite de uso por dia e compartilhe com ele estratégias para quando bater a vontade de usar telas, como: ter e seguir uma agenda/rotina por escrito, deixar o celular em uma gaveta e não ao seu lado, ocupar o dia com outros compromissos, chamar um vizinho para brincar, etc. Quando as crianças tem tempo ocioso, sua resposta imediata é preenchê-lo com aparelhos eletrônicos.

Quando seus filhos ficarem mais velhos, você pode permitir que recebam mais privilégios, ainda mais se estiverem fazendo sua parte em relação aos estudos e tarefas domésticas. Mas sempre lembrando de conversar e orientar sobre como se comportar e se manter seguro online. Atualmente, preparar nossos filhos para o mundo real começa por prepará-los para o mundo online. Ensine-os sobre o cyberbullying, enfatizando a atenção na maneira como se comunicam com os outros e ajude-os a evitar ferirem os sentimentos de outra pessoa. Se seu filho foi aquele que teve os sentimentos feridos, seja um ouvinte atento e lembre-se de que as crianças nem sempre estão procurando uma solução prática, às vezes, eles querem apenas um ouvido compreensivo.

Estudos científicos concluem que muito tempo na tela antes de dormir pode nos impedir de ter uma boa noite de sono. Uma estratégia para evitar isso é

desligar os aparelhos eletrônicos uma hora antes de dormir. Você pode passar recolhendo-os para carregar. Também podemos oferecer aos nossos filhos um substituto mais saudável: um bom livro. Quando pequenos, podemos ler para eles à noite. Escolher livros que levam de seis meses a um ano para serem lidos juntos – como a série Harry Potter, por exemplo. Ler para crianças pode ajudá-las a se acalmarem para dormir. E se você for capaz de tornar isso uma rotina regular, também permite que vocês passem bons momentos juntos.

Além da leitura, podemos incentivar e proporcionar atividades ao ar livre, esportes, música. Apresente coisas que possam interessar seus filhos e se tornar um hobby que pode ser benéfico ao seu desenvolvimento.

Abaixo seguem sugestões para fazer um bom uso da televisão:

  1. Não tenha televisão no quarto das crianças. Isso encoraja o isolamento e o distanciamento entre a família. Ademais, quando a tv está em uma área comum você consegue verificar se o que estão assistindo é apropriado. Meus pais nunca tiveram tv nem mesmo no quarto deles. Me lembro que meu irmão pedia uma para seu quarto, principalmente na adolescência, mas meus pais sempre negaram explicando que isso separaria a família. Eu nunca questionei pois saber o motivo fez sentido para mim. Por isso converso bastante com minhas filhas e te oriento a fazer o mesmo. Eles tem condições de entender nossos motivos e aceitam mais facilmente os limites quando compreendem a razão de agirmos de determinada maneira.
  2. Planejem e organizem com antecedência eventos televisivos em família. Pode ser assistir um filme, um show ou algum outro programa que todos curtam.
  3. Existem programa de tv educativos. Incentive que a criança assista e se interesse por programas sobre história, natureza, culinária ou aventura. Mas tenha cuidado com o excesso de informações, principalmente as desnecessárias. Canais do YouTube que oferecem todo tipo de conteúdo sobre curiosidades aleatórias apenas ocupam o cérebro das crianças com dados irrelevantes. Hoje uma criança de 7 anos tem muito mais informações do que um adulto de 40 anos que viveu no passado. Isso não é necessariamente bom. Estamos recebendo um excesso de informações, e isso tem comprometido várias questões, entre elas nossa memória e a administração do tempo.
  4. Pergunte às crianças o que assistiram e o que aprenderam, independentemente de você ter assistido junto ou não. Crie o hábito de conversarem sobre o que ela percebeu. Faz um bem enorme à eles e para a relação de vocês quando as crianças sentem que temos interesse por aquilo que elas fazem. Converse sobre possibilidades de aplicar o que aprenderam. Um dos problemas que noto hoje – e que também sinto na pele – é o excesso de teoria que consumimos e o pouco tempo de prática. Com a facilidade de acesso e a quantidade de informação disponível é fácil adotarmos uma postura de somente ler, aprender, descobrir e consumir e não aplicar aquilo que absorvemos. E como você deve saber, a prática reforça o conhecimento de forma muito eficiente, permitindo que o aprendizado seja muito maior.

Filhos e falhas

O cérebro das crianças ainda está em desenvolvimento e, às vezes, elas não tomam as melhores decisões. Pode acontecer de você ficar envergonhado por algo que seu filho postou. Quem é pai ou mãe em algum momento acaba passando por isso – sentir vergonha por alguma atitude do filho que julga imatura e inadequada – se não no universo online, fora dele. Eu já passei por isso fora da internet e conversei muito com minha filha sobre quais as melhores formas de assumir o que fez e de tentar corrigir a situação. E garanti que ela enfrentasse, por mais doloroso e vergonhoso que fosse pra ela – e para mim. Mas temos que escolher se queremos ser o tipo de pais que passam vergonha, mas ensinam os filhos a terem autoresponsabilidade, ou se seremos aqueles que fingem que nada aconteceu e deixam eles crescerem achando que poderão se safar dos erros que cometerem. O que é um ledo engano, pois a vida não será boazinha como você e fará ele se responsabilizar pelo que fez.

Em relação ao que postar na internet, ajude seu filho a compreender que qualquer coisa que ele compartilhar pode um dia ser visto por um diretor de escola, futuros sogros ou empregadores em potencial. Tudo o que compartilhamos na internet pode se tornar permanente, mesmo que seja dentro de uma conta privada – afinal, existem as capturas de tela. Então, se for algo que ele não gostaria que todos vissem, aconselhe-o a não postar. Também é importante que as crianças tenham cuidado com quem as está seguindo, e não apenas com quem elas seguem.

Muitos permitem que amigos de amigos sigam suas contas, e alguns atribuem o método “quanto mais, melhor” quando se trata de ganhar seguidores, como se fosse uma espécie de concurso de popularidade. Portanto, analise os contatos de mídia social de seus filhos com eles e tenha discussões abertas sobre por que estão permitindo que certas pessoas entrem em seu mundo privado.

ELETRÔNICOS x  HORA DAS REFEIÇÕES

A hora das refeições é o momento de conversarmos sobre como foi o nosso dia, de aprofundarmos nosso vínculo e criarmos memórias afetivas. Muitas vezes não há outro momento do dia em que paramos para conversar uns com os outros. A regra de não permitir o uso de eletrônicos na mesa deve ser clara e ser cobrada e praticada até que se torne um hábito de toda a família, independentemente se é um adolescente enviando mensagens de texto do celular ou uma criança pequena assistindo um desenho no tablet.

Uma estratégia eficiente é colocar uma cesta perto da mesa de jantar para que todos possam depositar seus aparelhos antes da refeição. Ao longo da vida, as crianças vão encontrar situações mais formais e que possuem regras mais rígidas. Ter a oportunidade de aprender e praticar em casa é um benefício para que elas vão se preparando para o que as aguarda no futuro.

Quando algum evento especial estiver se aproximando, como um almoço de aniversário de um parente ou uma ida a um restaurante, relembre com seus filhos as regras de comportamento. Quanto mais praticarem em casa, mais chances de que repitam esses comportamentos na vida.

É claro que devemos ensinar às crianças que elas também precisam se comportar bem em casa. É interessante reforçar com elas alguns lembretes quando uma ocasião especial se aproxima, mas procure incentivar e permitir que elas pratiquem também em casa, o máximo possível.

Trabalho

Uma situação que acontece hoje é que quando encerramos o expediente de trabalho e vamos embora para casa – ou mesmo no caso de quem faz home office – o trabalho dificilmente nos deixa. Com frequência recebemos mensagens e comunicados de trabalho em um horário que já deveria ser de descanso. Ou seja, a linha que separa o trabalho da vida pessoal acaba ficando muito fina. As duas atividades praticamente se misturam o tempo todo. Precisamos estar atentos a forma pela qual reagimos e respondemos a esse cenário, visto que essas interrupções frequentes drenam nossa atenção e energia.

Outra situação que deixa dúvidas: se seu chefe te manda uma mensagem no sábado você deve responder no final de semana ou pode esperar até segunda-feira? Ainda não definimos, enquanto sociedade, o que é aceitável e o que não é. Mas isso faz parte do processo.

Se a empresa em que você trabalha tem regras como, por exemplo, não usar o celular durante reuniões, é importante cumpri-las. Na verdade mesmo que sua empresa não tenha essa regra, procure não usar dispositivos durante reuniões.  Uma regra geral para te ajudar a identificar esses momentos, caso não existam regras claras, é: sempre que estiver na presença de outras pessoas e elas estiverem falando com você, não troque a pessoa pela tela do aparelho. Vale tanto para reuniões de negócio e o ambiente de trabalho como para encontros sociais. Caso esteja conversando com alguém e receba – ou esteja esperando – uma ligação urgente, avise que precisa atender uma ligação urgente, peça licença e assim que possível retorne a atenção para a pessoa. Ou se despeça antes, caso não pretenda retornar. Ninguém gosta de falar com alguém que está o tempo todo digitando ou olhando para o celular. É muita indelicadeza.

Se você precisar fazer ligações pessoais do seu celular em um intervalo no trabalho, se afaste dos seus colegas para falar. Também é recomendado não usar o viva voz ou mensagens de áudio em volume alto, caso contrário seus colegas ouvirão suas conversas.

Se você precisar falar com alguém, for até a pessoa e ela estiver em uma ligação, não fique parado esperando a pessoa terminar. Saia e volte em outro momento. 

Uma recomendação em relação à mensagens e e-mails de trabalho, é não demorar muito para dar um retorno. Já as mensagens pessoais tem uma flexibilidade maior para serem respondidas.

Procure verificar a gramática antes de enviar um e-mail e evite escrever de forma muito informal. Ele é um reflexo da sua imagem profissional.

A TECNOLOGIA NÃO É O INIMIGO, HÁBITOS RUINS SÃO

Cada família tem seu próprio conjunto de circunstâncias e soluções, mas todos nós podemos nos beneficiar se desenvolvermos, com o tempo, uma estrutura consistente a ser seguida à medida que vamos definindo essas regras fundamentais sobre as circunstâncias apropriadas para o uso das telas. Se soubermos usá-la bem, a tecnologia pode facilitar a comunicação em nossas famílias, e o primeiro passo para isso é fazer um plano familiar. A rotina e os limites são duas ferramentas poderosas que nós pais podemos usar, evitando conflitos no dia-a-dia. A nossa dependência das telas só cresce, portanto é útil criar uma atmosfera de expectativas razoáveis dentro de nossa casa – regras que nossos filhos podem entender e então se comprometer a seguir.

E como vimos, essas recomendações também servem para nós adultos e para o ambiente social e de trabalho.

Lembre-se: o inimigo são os hábitos ruins, e não a tecnologia. Ela impõe sim vários desafios, mas nós é que estamos – ou deveríamos estar – no controle da situação, e não nos tornando escravos dela.

Quando a tecnologia pode ajudar nas interações sociais

Veja neste vídeo um exemplo de como a tecnologia pode ser útil na comunicação e no desenvolvimento de habilidades sociais:

Confira nosso blog para mais textos como este; E não deixe de dar uma conferida nos nossos cursos para crianças e adolescentes.

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Adapted excerpt from Manners Begin at Breakfast: Modern Etiquette for Families by Princess Marie-Chantal of Greece. Copyright 2020 by the author and reprinted by per- mission of Vendome.

https://www.kpbs.org/news/arts-culture/2010/01/12/how-technology-affects-etiquette-and-social-intera

https://avenuemagazine.com/technology-and-manners-children-family/

 
2 Comentários
  1. Avilmar Araújo Pereira   ///   27/12/2021 - 12H22

    Gabriela, Bom Dia!!!
    Comprei um eletrônico para presentear um amigo da família, porém por se tratar de um item de preço razoável, que dependeria da nota fiscal para exercer seu direito de consumidor no caso de defeito, seria grosseria eu enviar a N.F com o presente?

    Obrigado.

    Avilmar Pereira

    • Gabriela Vassimon   ///   27/12/2021 - 11H04

      Bom dia, Avilmar! Neste caso, se a pessoa morar na mesma cidade que você, eu enviaria apenas o presente, sem a nota. Aí falaria para ela pessoalmente ou pelo telefone que depois vou entregar a nota para algum caso de defeito. Se vocês morarem em cidades diferentes e isso for difícil, eu enviaria tudo junto, mas antes avisaria: te mandei um presente e precisei colocar a nota junto pois você pode precisar dela futuramente para receber assistência técnica. Você pode avisar isso pessoalmente no momento da entrega do presente, ou ligar antes de mandar o presente, ou escrever em uma cartinha junto com o presente. Mas procure escrever uma carta junto com o presente falando algo mais pessoal e afetuoso também. Assim você não fala apenas sobre a nota. Diga algo como: espero que esse aparelho te dê acesso a um mundo de descobertas incríveis. Esse exemplo ficou bem amplo, recomendo que você pense na pessoa na hora de escrever. Se, por exemplo, é um jovem que quer usar um tablet para estudar inglês e viajar para fora, escreva sobre isso: “que você consiga atingir seus objetivos com o Inglês para voar em direção ao seu sonho de morar nos Estados Unidos.” Espero ter ajudado!

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